FLOR DE TUNA - SEGUNDO CAPÍTULO

2. RETORNO 
"Está vendo aquele umbu,
 lá embaixo,
À direita do coxilhão?"

No manantial
Eu vi nascer
Uma rosa
Baguala

"Vancê está vendo bem agora?"

Tiobha & V.Ramil. No manantial.

Um brilho dourado, os olhos abriam um pouco e ali estava, o brilho… algo doía no corpo. Tinha de fazer as guirlandas de Natal, mas ele não deixava. Pegou a tinta,  spray dourado, e "não, não  é assim que se faz, tu tem que pegá a tinta e precisa se afastar, olha…", um eco dentro da sua cabeça, "cuidado com o tênis, cara", risos, uma boca avermelhada, os lábios pareciam ter sido desenhados, a curvinha perfeita no lábio superior, cabelos crespos, negros e volumosos pendiam da cabeça abaixada, olhando cauteloso para uma das guirlandas no chão  "olha"... A voz que ecoava na cabeça parecia agora estar ali na sua frente, tanto que levou um susto… "olha"... abriu os olhos, a maçaneta dourada da porta reluzia por conta de uma fresta de sol. Ainda estava com sono, e tentava lembrar um sonho qualquer. Virou-se na cama e o sol atingiu os olhos que tentavam se abrir - numa tarde quente, o sol parecia refletir no sorriso dele, ali, tão pequeno, magrinho, "Que bom que vocês vieram… tu vai dormir no meu quarto, pode deixar que eu durmo na sala, a mãe já disse …", meu deus, não conseguia acordar. A cama se moveu ao seu lado.
- Hey, tudo bem?
A voz era grave e levemente anasalada. Virou o corpo mais uma vez, agora de lado, os olhos ainda fechados. Era a dor de cabeça que sentia, que incomodava, não conseguia sonhar nem acordar direito. Suspirou.
- É essa dor de cabeça… 
De repente, uma mão pesada e forte pousou em seu rosto, tentando ser leve, o mais suave possível. Sentiu o carinho e abriu os olhos, finalmente, ainda piscando um pouco por causa da incômoda fresta de luz. Franziu a testa.
- Tu devia ter ido para casa, Paulo.
A mão se afastou rapidamente e o outro ajeitava o corpo que logo estava sentado, recostado na cama. O excesso repentino de movimento bagunçando as cobertas.
- Que legal, hein…
Disse, pegando um cigarro do maço que estava na mesa de cabeceira. Acendeu…
- Qual'é, Paulo!?… Tu sabes que eu tenho essa porra de rinite. 
Paulo suspirou, para depois sorrir com ironia.
- Problema seu… é castigo por estar me mandando embora. 
Precisava esclarecer as coisas. Ajeitou-se, erguendo um pouco as costas, acomodando melhor a cabeça sobre o travesseiro.
- Não somos um casal, Paulinho. Daqui há pouco a vaca da tua ex ‘tá ligando pra mim, de novo. Não quero problemas. Tu sabe.
- Até parece que eu vou deixar isso acontecer, meu lindo.
A mão pesada pousou sobre a cabeça, dando carinho nos cabelos.
- Pára, Paulo. Assim tu me deixa mal e eu me sinto culpado… A genti já falô sobre isso...
- Você vai mesmo voltá p'ro Sul?
- Ainda não tenho onde ficar, mas vou sim.
Paulo buscou o cinzeiro na mesinha ao lado. Apagou o cigarro.
- Não entendo porque você quer voltar. Você tem tudo aqui. Vai se enfiar aonde, Orlando? Em uma cidadezinha cheia de colonos. Fica… a genti sai dessa merda de país em dezembro, pra viver um pouco como genti, pelo menos nas férias…
- Não, Paulo… e tu sabe que eu detesto esse teu jeito! Rotulando as pessoas, mania de querer ser europeu também…
Paulo Riu, voltando para baixo das cobertas. O abraço tão forte quanto os carinhos. Os beijos suaves no ombro, no pescoço. 
- Fica, vai… se você disser que fica eu voto no Haddad. Prometo.
 - Vendendo teu voto, é?! 
- É o que você quer, não é?… meu deus, eu sou muito apaixonado.
Orlando queria ficar sozinho, naquele momento, por isso o empurrou quando ele se dirigiu para sua boca.
- Pára! Pode votar no Ciro Gomes, mesmo, Seu Burguês! - disse, tentando se desvencilhar.
Paulo se afastou e saiu da cama, chateado.
- Tudo bem, eu não ia cumprir, de qualquer jeito… e se alguém aqui tem grana de herança, é você. Não eu. Sou só funcionário público, mesmo.
Olhava para corpo alto e robusto, que aos poucos ia se cobrindo, calça, meias… Orlando pensava no fato de que não amar o Paulo era mesmo confuso. Primeiro que, antes dele, já não acreditava mais no amor. Aquela paixão que faz a gente querer fazer muito sexo com alguém, o coração batendo descompassado, tudo isso, calafrios e arrepios, enfim, durava tão pouco que a dor de cabeça e todo o teatro posteriores não valiam a pena, mas Paulo conseguia confundir tudo, depois de quase cinco anos nesse vai e vem em sua vida, nunca deixava de parecer sentir sempre o mesmo. Estremecia ao menor toque, ficava olhando enquanto Orlando dormia, uma suspeita que ele tinha ao ver o outro com os olhos fundos, cansados, todas as manhãs, até que resolveu fingir dormir para confirmar.  Não teve coragem de se revelar naquela noite, já que, carinhoso, Paulo sempre lhe dava carinhos furtivos, admirando-lhe a face que nada tinha de muito interessante. 
- Desculpa, Paulinho.
A tristeza era evidente naqueles olhos castanhos em tom mel, caramelos, tão singelos.
- Você me trata muito mau, sabia? Não sei se é possível fazer você se apaixonar… confesso que se eu pudesse, eu esquecia você… um mundão desse aí fora, e eu aqui…
Havia chegado o momento de sair da cama, afinal. Ao sair das cobertas, os olhos do colega de trabalho percorreram seu corpo, já um pouco flácido, de homem que se exercita pouco e por obrigação. 
- E ainda fica se mostrando assim para mim, depois de recusar um beijinho… 
Aproximou-se dele e o abraçou. Antigamente, conseguia ser mais frio, mas agora, era um pouco triste sentir que Paulo tremia e suspirava dentro do seu abraço.
- Sabe que brinco, mas que eu realmente queria que a gente morasse juntos. 
- Eu sei, mas tem algo errado comigo. Algo muito errado, Paulo… ainda quer aquele beijo?
- Não brinca comigo, Orlando…
Eles se despediram assim, depois de um último beijo. A ausência de Paulo na casa trazia à tona a realidade crua. Orlando olhou ao redor...A vida estava ali, real, completa e desagradável, no sol, na poeira escondida nos cantos, ou exposta sobre os móveis, mesmo a casa estando limpa, a poeira, no Brasil, nunca tinha fim… 
   Orlando havia mudado demais desde o incidente com o filho do Paulo, o abuso sexual do tio, uma barra que o Paulo ainda passava. O irmão era um monstro, um tipo de monstro que só se criava em terras brasileiras, gritando algemado p'ro Paulo, "Mas você é viado, nem é seu filho, você ia fazer se eu não fizesse.", o horror, o horror… Orlando sentia náuseas só em pensar… Esse acontecimento foi um terremoto que mudou tudo, tudo ruiu ao seu redor. Chorou por muitos dias andando pela casa, a culpa o consumia… nada mais tinha sentido. A casa enorme, os canteiros de flores projetados por paisagistas, o canto do café no trabalho, onde fazia questão de se exibir e contar vantagem para os outros, os carros, as viagens, os espetáculos, a comida… Sim, Orlando via como havia sido desprezível durante toda a sua vida. Não fosse esse fato, o abuso do Gui, e a súbita capacidade de ver seus erros do passado, hoje ainda seria um estúpido, provavelmente um bolsonarista sujo... Há mais de dois anos foi mudando, mudando. Suas próprias atitudes o derrubavam… lembrou -se que em 2016 ele sofreu muito com o golpe de estado, mesmo não tendo votado em Dilma Rousseff, pelo que, aliás, ele se arrependeu profundamente.
 Sentou no sofá da sala de visitas, ainda nu. Era sábado de manhã e somente ele estava ali… deitou e se encolheu, olhando para o céu estéril e limpo do Rio de Janeiro, através da gigantesca parede de vidro, o céu da cor dos seus olhos. Céu seco, sem vida, sem pássaros…as imagens o assombravam… fazia um calor insuportável naquele dia, perto do chafariz da Praça General Castelo Branco, no Paço, sua terra natal.  O olhar dele era de medo e vergonha, e fugia o tempo todo do encontro com os olhos de Orlando, "porque não acredita em mim, Dinho? Eu pensei que tu ia acreditar, por isso eu só contei pra ti…", os olhos dele eram enormes, pretos, os cílios cerrados, o nariz pequeno e perfeito no rosto magro. "Não quero nada, primo, só pede pra tia me levar nas férias dessa vez, se eu pedir ela vai negar, eu sei, vai dizer que tu tá de castigo, sei lá …mas olha só,  eu juro que não vou te prejudicar" . A lembrança fez ele abrir os olhos, agora úmidos, queria esquecer, mas cada vez as imagens eram mais nítidas, a voz, até o cheiro dos instantes… Respirou, ainda procurando se justificar interiormente, tentava, ao menos… Não parecia verdade, ele já tinha quatorze anos, e se fosse verdade, ele podia fazer parar, podia contar p'ros pais… Foi o que pensou naquele dia. Não queria uma surra com o fio do ferro de passar roupa, que o pai, maldito, homem de merda, usava para bater nele e até na Lúcia, sua irmã. E se o pai suspeitasse dele, ia apanhar p'ra valer… maldito covarde, era isso que ele sempre tinha sido.
 Hoje, lembrando, Orlando via nitidamente que Dimitri não conseguiria contar nada, para ninguém, por medo, por vergonha, por saber que não acreditariam nele… E dar mais problemas p'ra família? Eles viviam com muita dificuldade, mesmo. O chalé parecia um barraco, sempre mal cuidado. Comida importava mais do que tinta, claro. E como ia se defender do tio? Todos eram muito devotos, menos Dimmy, o que era razoável, já que o tio Heitor era padre… rezava a missa na Catedral aos domingos, e Orlando sempre o admirou, até quis ser padre, também. Dimmy parecia estar inventando coisa, mas hoje Orlando se perguntava como pode duvidar daqueles olhos súplices, daquele menino que ele achava tão estranho, e que sempre o recebia com carinho, e a quem ensinou a andar de bicicleta. Naquele Natal, ele estava tão orgulhoso por Orlando, que tinha ido estudar em Porto Alegre, sozinho… não demoraria para toda a família ir embora, e depois, Orlando nunca mais voltou.
Dimmy era dois anos mais jovem e parecia ainda muito criança, muito indefeso… confiou em alguém, sim, confiou na pessoa errada, e saber que podia tê-lo poupado de ser abusado por pelo menos uma temporada de férias, ou talvez para sempre, era agora uma dor enorme. Não entendia porque tinha o peito ofegante, uma dor lá dentro, que queria que sumisse, mas não ia embora, nem com remédio. Sentiu um vazio na barriga, de repente, um desconforto, como um oco, que o obrigou a se levantar. 
Voltou para o quarto. Queria morrer, para não sentir aquilo. Deitou-se na cama de novo. Durante a recuperação do Guilherme, sempre ia à psicóloga com o Paulo, "o senhor tem que entender que ele tem quinze anos, mas o abusador tinha mais de trinta… um adolescente não é muito mais que uma criança… Ele está confuso… E depois, foram anos em uma situação que ele não compreendia muito bem…". Orlando ouvia com atenção, pois o caso era o mesmo, exceto pelo fato de que Dimmy estava sozinho, e mesmo que a mãe soubesse, e se por acaso acreditasse, psicólogo era um dinheiro que ela não tinha, um luxo.  O pai do Dimitri havia brigado com o irmão, o pai de Orlando, e sem nunca entender muito bem o que aconteceu, apenas sabia que o tio havia ficado sem nada. Essas brigas por herança eram comuns naquele lugar, naquele tempo... Orlando queria entender, mas o tio havia falecido quando ainda eram, ambos, duas crianças. Dimmy sorria irônico quando dizia "é que sou a parte pobre da família".
Orlando suspirou. Pegou o telefone que estava embaixo do travesseiro e entrou no Facebook. Lá estava o pedido de amizade, há anos, e ele nunca aceitou, não teve coragem. Quando o viu na capital, no simpósio sobre subjetividade que fez para cumprir carga horária, ele era um adulto magrinho e ainda mais delicado. Ele sorriu e convidou para um café. A viagem devia ter sido cara, e ele parecia ter pouco dinheiro, mas fez questão de pagar.  Na época, Orlando ainda era imbecil demais para entender, e queria, precisava ferir, para se convencer, mas de quê?  ... Claro, ainda era religioso, e na educação recebida pelos pais, um padre seria sempre uma espécie de autoridade divina... no fundo sabia de seu erro. Podia ter apenas conversado com ele sobre a vida, sobre sonhos, mas não,  precisa provar para si mesmo que ele havia mentido, por orgulho ..."Parece que tu te recuperou bem dos maus-tratos do tio Heitor, Dimmy, ou tu gostava"; os olhos dele olhavam para a mesa, a cabeça baixa… Foi quando Orlando se assustou pela primeira vez com a tristeza, com uma dor que ele nunca tinha visto... "Eu nunca fiz nada para ti, Dinho… por quê tu não me vê como uma pessoa?", e depois os olhos tristes, úmidos, fitando indecisos, "Eu não sou nada mesmo p'ra ti? Você também me... É, eu não sou, nunca fui...". E não disse mais nada, saiu com pressa, talvez até com medo… Sim, medo. Que lugar ruim era aquele de onde Orlando havia saído? Aquele “Você também me...”, seria “tocou?”, “abusou?” ... Dimmy havia sido usado, e de todas as formas... Hoje ele sabia que o silêncio naquele dia era porque não tinha forças para falar. A dor que causou foi tão grande, e mesmo assim, anos depois, ele pediu amizade no Facebook. 
Não se viam há quase vinte anos, mas Orlando sempre sentiu uma estranha saudade. E as fotos públicas dele doíam: ele casou, era pai. "Mas tu vais só me beijar, né? E se a vó enxergar a genti?". Ele tremeu tanto, mas depois deixou. E beijou como um adulto, o que Orlando só foi saber depois, mais tarde. Pareceu engraçado, e delicioso, mas não era, hoje não mais. Dimmy não era como ele, ou como os outros, não estava descobrindo o sexo, alguém havia lhe ensinado sem que ele quisesse, ou entendesse. A mão dele era macia e pequena sobre a roupa. O ventilador ligado no quarto cheio de bagunças, mochilas, bugigangas… os colchões no chão como ninhos, a janela do chalé estava aberta, lá fora uma figueira muito grande e velha, o cheiro adocicado das flores e dos frutos maduros. A cintura dele era tão fina que parecia que podia quebrar. Dimmy era uma rosa nascida na rocha do planalto, solitária. Orlando sempre foi alto, grande, apesar de ser magro. Um rapazote bonito, diziam. O seu corpo cobria completamente o corpo pequeno. Foi sua primeira vez, e era como se o menor é que o ensinasse.
Essa lembrança era o que mais o atormentava. Nunca mais o tocou, procurou evitar-lhe o máximo, eram primos e era errado... Família doente dos diabos. Composta por religiosos e machões, os homens, gaudérios, bombacha, alpargatas... Orlando se perguntava se era igual aos outros, mas o que sentia por Dimitri era algo muito forte, que fazia acelerar a respiração, tremer o corpo...  Dimmy era a prova de que deus não existia, caso contrário, aquele menino não teria nascido naquela família, nem no Paço, com os outros o excluindo nos jogos da escola, sempre solitário e taciturno.
  Orlando ainda guardava as três cartas que ele havia enviado, em uma época que e-mail ainda era coisa de outro mundo. Ele contava da escola, dos sonhos que tinha, e dizia da saudade que sentia.  Nunca respondeu, pois morria de medo. Há dois anos que lia os livros que ele citava nas postagens do face e do Instagram, via os filmes, lindos, sensíveis. Aprendeu muito com ele, sem que ele soubesse, até leu Marx.
Assustado com a dor que sentia, com o vazio no estômago, e repulsa por si mesmo, resolveu fazer o que prometeu para si mesmo que faria. Aceitou a amizade e deixou uma mensagem. 
"Oi, Dimitri. Sei que faz muito tempo que não nos falamos, mas pedi uma transferência para o Paço.  Vai demorar um pouco para eu poder sair aqui do Rio, mas preciso, desde já, encontrar um lugar para morar. Tu ainda tem a casa da tia, que tu alugava? (vi tuas postagens, desculpa). Se sim, poderia alugar para mim? Ou encontrar um lugar, perto do Centro? Ah, e amanhã, vamos de Haddad, né?!"

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