FLOR DE TUNA - PRÓLOGO E PRIMEIRO CAPÍTULO
pAÇo da Guanxuma,
outubro
de 2018.
*Prólogo
“Em
Clareza o pampa
infinito e exato
me fez andar
Em
Rigor eu me entreguei
Aos
caminhos mais sutis
Em
Profundidade
A
minha alma
eu
encontrei
E me
vi em mim”
Vítor Ramil.
Milonga de sete cidades.
Quem for chegando ao Rio Grande do Sul, extremo sul do
Brasil, vai ver que também por aqui se sente a brisa marítima, que há praias,
pescadores, e até mesmo grandes embarcações, embora uma grande parte do estado
esteja muito distante desses espaços, onde a maresia se faz presente. Ah, sim,
a maresia... Esse ar de sal que nos faz lembrar da imensidão do mundo.
O que acontece é que, em um determinado momento, o viajante irá perceber
que a possibilidade de mar ficou para trás, junto com as gigantescas árvores, as colinas e a vegetação agressiva, e que a
paisagem passa a ser, cada vez mais, a de imensos campos de soja, trigo e arroz.
É aqui, nesse trecho do percurso, quando o veículo já não está nem a subir ou a
descer, que o viajante finalmente estará muito próximo ao Paço da Guanxuma.
Claro, corre-se o risco de passar por esta pequena cidade
(não mais que uma pequena vila), sem perceber sua existência. Mas isso não é relevante,
já que poucos seres humanos, não importa de onde sejam, saem em viagem com o
objetivo de alcançar esse resquício de imperialismo à moda brasileira, onde ainda importam os sobrenomes, e a moral
ainda é aquela mesma dos que têm pouca ética, devido à má educação das famílias “de bem"...
Assim são designados esses cristãos branquinhos, muito corretos e amantes de
fardas, coisa comum nessas paragens latinas, ainda sem voz e desde sempre sem
uma bandeira que o valha.
Pouquíssimas pessoas viajam para o Paço... E os que ali
ficam, nada podem fazer diante do vento quente e seco do planalto durante o verão,
ou do vento de açoite durante as madrugadas de inverno. Tudo ali, onde está
localizado o Paço da Guanxuma, é reto como o planalto ao redor, também vazio,
também difícil... Mais ou menos como uma boca seca, cuja pele se racha, abrindo
vincos de sangue.
Mesmo assim, ainda se vive no Paço. E nascem crianças. Dimitri nasceu antes do inverno, em vinte de
abril de 1979, quando Orlando já começava a entender melhor o mundo, pois a
maior parte das coisas, ele já reconhecia pelo nome.
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1 – Nem só de pão vive o homem.
“O rosto se perdeu
O gesto se desfez
Depois daquele beijo teu
Nada real ficou”
O gesto se desfez
Depois daquele beijo teu
Nada real ficou”
Vitor Ramil. Valérie
O calor era insuportável, apesar de ser primavera. Não
havia ar-condicionado na pequena sala de aula que abrigava os trinta e dois
alunos. Eram quase meio-dia e Dimitri estava com sono, pois não havia dormido
bem. Há tempos que não dormia muito bem. A calça jeans e o tênis velho tornavam
pior a sensação de calor, mas não conseguia ir à escola de bermuda. Talvez por
ser homem, não queria dar margem para dizerem nada sexual a seu respeito, até
porque, preferia passar a ideia de um ser sem sexualidade alguma, já que um
professor bissexual não seria visto muito bem, de jeito nenhum, não no Paço,
não no Rio Grande do Sul, ou no Brasil. No seu caso, era ridícula a ideia que
pudesse sentir alguma atração por adolescentes bobos e desengonçados… Mas era
assim, todo homem era uma ameaça, na maioria das vezes, e ele dava razão à
preocupação das mulheres, das mães, e dos homens que também tinham medo do que
outros homens eram capazes de fazer, ele mesmo tinha medo, porque sabia,
conheceu essa ameaça ainda cedo demais...
Quanto a ser professor, dava graças aos seus quarenta anos, aos ares de senhor chato que a
idade agora lhe dava - não dava graças a deus, estava deixando esse vício
idiota de linguagem de lado, mesmo tendo a permissão de Luís Buñuel para
usá-lo. Enquanto escrevia na lousa branca, lembrou da colega de matemática durante
uma reunião sobre sexualidade e identidade de gênero um ano antes, “bissexualidade
hãn, sei... Tudo bobagem, deus criou o homem e a mulher, o resto é
sem-vergonhice, e agora ainda querem inventar mais nome ainda p’ra falta de
vergonha, não-binário, qui’é isso? Que nojo...”. Respirou fundo, não era
bom saber que havia pessoas que se enojavam do que ele era.
Os alunos estavam bem adiantados no conteúdo, e como ele
detestava análise sintática, havia proposto a composição de um texto coletivo,
narrativa, coisa simples para um primeiro ano do Ensino Médio, ainda mais tão
próximo do final do ano. Mas salvo raras exceções, ninguém quis escrever, e o
tempo dado para a realização da tarefa se transformou em zoação com vídeos da
internet e exposed no twitter. Assim, resolveu então passar uma outra
atividade, bem estruturalista, revisando a análise sintática de orações
subordinadas adverbiais. Era assim, nenhuma proposta que exigisse deles leitura
ou escrita de mais de uma página acabava bem... estava no terceiro exercício, e
pode ouvir risadinhas, a conversa aumentava. Lá fora, o barulho aumentava também,
colegas querendo se livrar o quanto antes, deixando-os ir embora mais cedo. O
calor, o sono, a falta de vontade dos alunos, tudo contribuía para sua
irritação, mesmo assim, ainda tentava ignorar ... “ah mas tu nem sabe quem
ele pegô, juninho, ele pegô a Priscila”, e depois, “quiáquiáqui”,
“puta que pariu, Claudia... Porra, Mika, quem é qui’qué pegá aquele barril?
deus’o livre”, “cala boca Gabriel, não te intromete”, e a paciência
de ouvir, e a paciência de saber que não estavam nem aí para escrita, ou leitura
ou análise sintática, “meu querido Paulo Freire, dá-me forças, por favor”,
essa era a oração em sua cabeça agora, “dá bola não Mika, o Gabriel é viado,
que eu sei, não pega nem barril”, “bãi Gabriel, vai dexá barato, mew”,
“O que eu sei é que tu tá é afim da minha rola, seu filha da puta”, não
ia acabar bem, não ia, “quem é qui’é filho da puta aqui??, seu retardado?!”
– na reunião de formação no sábado, com a equipe diretiva: é importante
sabermos lidar com situações de conflito - tah bom Mara, Tah bom, vou lidar...
Mas já não tinha forças para falar de coisa alguma, de homofobia, direitos
humanos, nada, ainda bem que logo ia tocar o sinal...
Há dois anos que ele
se sentia mais sensível e mais irritado, como se uma grande injustiça pesasse
sobre suas costas.... tudo que ignorava,
que deixava acontecer, agora ele não conseguia, aquilo era demais, esse
cansaço, essa dor no peito, e esses moleques, a casa vazia até pegar a Lya, com
a mãe, solidão, nada nada que esses moleques pudessem entender, talvez. Deixou
o quadro e se virou, olhando, perpassando o olhar, até se fixar no fundo da
sala de aula.
- Parece que o Gabriel e o Mikael estão apaixonados,
afinal.
Todos se olhando, o riso solto, melhor lidar assim,
encerrar aquilo, todos rindo, sem parar, “bah, sôr... quiáquiáquiá”,
toca o sinal.
- Quem não tiver o conteúdo de hoje no caderno na próxima
aula, não vai ter permissão p’ra fazer o teste semana que vem.
Última olhada, todos guardando cadernos, estojos, atirando
tudo nas mochilas, com pressa. Um olhar o procura no fundo da sala... Mikael; o
Mika o encara, sério, a roupa justinha, a pulseira de couro no braço, colar de
‘mc’ alguma coisa... Menino alto, grande, bem maior do que o professor. Dimitri
resolveu baixar a cabeça e não olhar mais. Os cachos perfeitos, soltos,
suspensos sobre os olhos... É que Dimitri tinha essa perturbadora condição
física de aparentar sensibilidade e delicadeza, e que a idade não conseguia
esconder... Mas seu olhar, mesmo
escondido pelo cabelo comprido e espesso, até a altura do queixo, era um olhar
aguçado. Agora ele pensava no que via desde o início, quando aquele aluno
espalhou pela escola que o novo professor era gay, com certeza... Moleque
abusado, homofóbico, evangélico, racista, fazia bullying com todos, mas não era
o único, só mais um...
As canetas para o quadro branco estavam a maioria gastas, a
mochila tinha muitos livros e Dimitri sabia que andava desleixado, que tinha de
preparar melhor as aulas, assim, guardando a sua pasta com os diários de
classe. Ao sair, um aluno se aproximou, bateu em seu braço, era ele.
- Tô sabendo, sôr, “Lula ladrão, roubô meu coração”
Dimitri olhou para ele, sério, a cara séria de um professor
chato. Ele deu mais uma risadinha e uma das meninas o puxou pelo braço, “qui’é
isso Mika, deixa o sôr!”, “mas ele é bicha, tudo qui’é bicha detesta
Bolsonaro”, logo que sai, no corredor, “essas bichas são tudo petista!
Domingo é 17, seus filha da puta!”, risos, risos... Uma voz desconhecida,
outra turma, não a sua, “mito!”. Dimitri respirou fundo, uma duas vezes;
tomara que um dia você ame tanto um cara que não te queira, ame tanto que vai
sentir vontade de morrer, moleque, e vai ouvir esse psicopata aí dizer que você
é uma vergonha, um verme, pobre coitado, evidentemente gay, descobrindo,
buscando foto de homem pelado na internet, pornô não, só com mulher,
pornô gay não tinha coragem, ainda... apavorado com a ideia de ser descoberto,
apaixonado por Noah Centineo, ator simpático, mas meia-tigela, que só aparece
em filmes lixo para adolescentes, embriagado por essa nova estética masculina,
muito músculo, os pelos voltando a estar na moda, ficando tonto, depois vinha
para a escola, descontar nos outros seu desamor por si mesmo, o discurso do
pastor retumbando dentro da cabeça, “o pecado não está no pensamento, e sim
no ato”, o pai na mesa, verbalizando o clássico clichê dos pais das melhores
famílias... “prefiro filho bandido, do que filho viado!”, mas mesmo
vendo, e sabendo, não podia pensar assim dos alunos, não podia, “que saco!
Merda! Moleque viado da porra!”, acabava usando ele mesmo o termo, mas não era
ofensa, era apenas uma afirmação...
Às vezes, sem muita explicação, além do óbvio plausível,
Dimitri saía do trabalho com vontade de gritar, mas ficava tudo dentro, e
levava p’ra casa. Ali, também, ele queria gritar... ainda bem que sua Lya não
estava nesses momentos, não queria que ela visse nunca a sua derrota. Era um
grito de derrota, que estava em todos os lugares, não apenas na escola, ou nas
ruas mortas daquela cidadezinha ... Entretanto, também pensava que ela nem
entenderia, a casa cheia de amigas no fim de semana, ele na fila, votação para
presidente, a rua cheia de filhos da puta bolsonaristas. Agora andavam à solta,
nas lojas, nos bares, esses desgraçados, como uma infestação de pragas… e já
conseguia ver, sábado, domingo, solidão, barulho, comidas que não queria comer,
Netflix e muito Rupinol, dose maior do que a recomendação médica. Tinha de
limpar ainda a casa, ir ao mercado... seu corpo pequeno parecia diminuir ainda
mais, "sôr, tu é muito anão", e riam dos seus 1,60cm, assim,
perfeitos, exatos 1,60cm. Se ao menos ganhasse peso, nem isso. E demorou para
ter cara de homem, como agora. Tudo nele indicava uma vida acidental, nenhuma
escolha possível além das poucas possibilidades, lembrou de Chico Buarque, "e
na barriga da miséria nasci brasileiro" - pensou ainda que era uma
pena não ser do Rio de Janeiro, e sorriu para si mesmo.
Entrou no seu velho gol branco, atirou a mochila no banco
de trás. Pegou o celular, 12h07’. Vasculhou um pouco, whatsapp, grupo dos professores,
textos com histórias cheias de moral e autoajuda, algumas das colegas falando
mal dos homens, reclamando dos alunos, avisos, foto de ator gostoso, parrudo,
ou de galã com ares de conquistador, e todas comentavam, alegres, casadas ou
não. Ao menos, Dimitri tinha mais colegas mulheres, quase só mulheres, e sempre
sorria ao ler as mensagens no grupo. Teve vontade de comentar uma foto do
Robert Downey Jr…" ô, lá em casa!"... Mas preferia se manter assim,
nulo, já que elas nunca se dirigiam a ele. Era quieto demais, rabugento demais,
e meio louco, era assim, ele queria que fosse assim... Outros grupos, o de
antigos “amigos” do Ensino Médio, “precisamos nos reunir, na casa de quem?”,
nada diretamente para ele. Depois, Lya, “pai que horas tu vêm? Posso almoçar
aqui na mãe?”, Claro que pode meu amor. E do Rafa, nada... Era seu melhor
amigo, mas nem tanto… parecia que o Rafa não tinha paciência, só quando queria
elogio, exibir conhecimentos, algo novo que havia comprado, a vida perfeita,
esposa perfeita, filhos perfeitos, dois. Fato é que tinha de ligar para ele,
pois o Rafa vivia correndo na vida, feito doido. Respirou fundo diante de sua
solidão… ninguém, ninguém... Sentiu fome, mas não tinha dinheiro para comer em
restaurante, nem no mais pobre, não tinha vontade de cozinhar, também..., mas
tinha de ir embora, tinha de esperar até poder pegar a Lya. Respirou, puxando o
ar com força, um suspiro de alívio. Deu a partida. Quatro, cinco minutos até em
casa, se ele conseguisse evitar os semáforos.
O cheiro da casa era bom, havia comprado um desses
vidrinhos com óleos, ou sei lá o quê, e varetas que faziam o cheiro se
espalhar. Atirou a mochila no sofá, como os alunos, e resolveu que era melhor
lavar o rosto, deitar um pouco, fechar os olhos. Revisou as contas sobre a mesa
e viu que a de luz estava atrasada, ainda. Infelizmente ele teria de esperar o
final do mês.
Um pensamento aleatório, intruso, cruzou seus pensamentos,
na forma de uma imagem cinematográfica, pernas grossas e fortes, pelos, o calor
parecia ainda mais insuportável na cozinha. Fechou os olhos e suspirou. Maldito
corpo, tão pequeno e tão ansioso. Diego... poderia ligar agora e pedir para que
ele viesse, aliviar aquela febre, mais de um mês sem transar. Sabia que não era
nada para o Diego. O cara só dava oi no WhatsApp quando queria sexo, fingindo
se importar... Olhou para o pequeno círculo com a foto dele, sorriso largo,
burguês. Clicou para ler a mensagem ignorada há três dias... “como você está, lindo? Viu o filme que
está em cartaz? O que acha? Tô pela cidade, tu quer?” - traduzindo, ou você
transa comigo agora, ou vai ter que esperar eu voltar de uma viagem su-per-im-por-tan-te.
Não, melhor não, estava carente demais p'ra isso, o corpo que se acalmasse.
Antes de deitar,
ainda sozinho, buscou na mesinha ao lado da cama, escondida embaixo da base do
abajur. Na imagem, ele pequeno na casa dos pais, e o menino, os dois na sala,
um natal qualquer, árvore de natal dessas de verdade, não de plástico, bolinhas
de espelho que cortavam se as quebrasse – o menino a seu lado olhava para a
câmera, sorrindo, o dedo em “v”, abraçando Dimitri, com uma camiseta do Guns ‘n
Roses, os cabelos compridos até os ombros, os olhos muito azuis. Os cabelos
lisos e muito pretos, volumosos, rebeldes, a barba dele estava começando a
existir... Não sabia porque sempre tinha vontade de olhar para ele, não sabia
se o odiava, ou o que realmente sentia. Nunca podia olhar quando estava casado,
sentia-se culpado com a ideia, talvez envergonhado, porque teria que explicar
aquele gesto furtivo e solitário... Nunca mais o veria novamente, tinha quase
certeza... Ele poderia ter sido outra pessoa, parecida com o nome, talvez,
porque ele não se parecia em nada com “Orlando”, era um menino cruel
demais para Or-lan-do... E agora, com as eleições tão próximas e uma sensação
de que mais uma vez acumularia outra derrota para a sua coleção de… bem
assim, nesse momento, aqueles grandes olhos azuis voltavam com toda força para
seus pensamentos. “Onde você está?”, balbuciou cansado para si mesmo. Guardou a
foto no lugar onde estava e ajeitou o travesseiro. Já havia posto o celular
para despertar as 13h30’. Quarenta minutos bastavam. Fechou os olhos... Aos
poucos a manhã ia deixando de pesar nos ossos...

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